11/02/2026

Trabalho Saudável: Para 2026: parar e escutar

Edição 408 – Dezembro/2025

O papel do profissional de SST na era da pressa

O ano de 2025 chega ao fim. E se pudéssemos escolher uma palavra para descrevê-lo, talvez fosse pressa. Pressa para entregar, para responder, para postar, para inovar, para “não ficar para trás”. Vivemos cercados de estímulos, dados e tarefas que disputam nossa atenção a cada segundo. O mundo mudou – e nós mudamos junto. A tecnologia encurtou distâncias, mas também alongou jornadas. A Inteligência Artificial ganhou força, mas o tempo humano parece cada vez mais escasso.

Quantas vezes, neste ano, paramos por um instante para simplesmente respirar? Para ouvir uma boa música, observar a natureza ou refletir sobre o propósito do nosso trabalho? A era da pressa nos ensina que a urgência não combina com profundidade. E, no campo da SST (Segurança e Saúde no Trabalho), profundidade é justamente o que mais precisamos.

Ainda assim, 2025 foi um ano marcante. A SST conquistou espaço em agendas estratégicas, foi tema de fóruns empresariais, ganhou destaque nas universidades e nas discussões sobre produtividade sustentável. Mas o que mais se consolidou foi a compreensão de que a saúde do trabalhador não é apenas ausência de doença – é presença de bem-estar, de pertencimento e de sentido.

A integração entre áreas como Medicina do Trabalho, Psicologia, Engenharia, Ergonomia e Recursos Humanos se fortaleceu. A saúde mental, que já foi tabu (e ainda é em algumas organizações), torna-se prioridade. Empresas começaram a olhar para a qualidade das relações no trabalho – e perceberam que líderes empáticos, ambientes seguros e políticas coerentes produzem mais resultados do que qualquer software de gestão.

DESAFIOS
Mas, enquanto os sistemas se digitalizam, os trabalhadores seguem humanos. E é justamente nessa tensão – entre o avanço tecnológico e a necessidade de cuidado – que se desenha o futuro da SST.

Se até pouco tempo a missão era “cumprir norma”, hoje o que se espera é criar cultura. A norma continua importante, mas a cultura é o que transforma. O profissional de SST de 2026 precisará ser um tradutor de complexidades: alguém capaz de unir o técnico e o humano, o número e o significado, o dado e a história por trás dele.

A tecnologia seguirá como grande aliada. Plataformas integradas, dashboards inteligentes e análise de dados permitirão enxergar tendências antes invisíveis. Mas o que fará a diferença será a capacidade de interpretar essas informações com sensibilidade e propósito. Porque não há algoritmo capaz de substituir o olhar clínico que percebe um cansaço silencioso, ou o diálogo que evita um afastamento por sofrimento mental.

Prevê-se para 2026 um cenário ainda mais desafiador – e promissor:

  • Integração real entre SST, saúde corporativa e atenção primária à saúde, com foco em cuidado coordenado e prevenção de agravos crônicos e mentais.
  • Uso ético da Inteligência Artificial para análise de riscos, previsão de afastamentos e identificação de padrões de adoecimento, sempre com supervisão humana. Não para “montar” PGR (Programas de Gerenciamento de Riscos) ou PCMSO (Programas de Controle Médico de Saúde Ocupacional), mas para auxiliar na tomada de decisões para esses programas.
  • Expansão do conceito de “trabalhador saudável”, incorporando dimensões como saúde emocional, financeira, social e digital.
  • Revalorização da escuta e da presença: as empresas que prosperarem serão aquelas que conseguirem unir eficiência tecnológica com genuíno cuidado humano.
  • Educação continuada como rotina: o profissional de SST do futuro será um eterno aprendiz, navegando entre medicina, dados, comportamento e gestão.

O conhecimento técnico continuará essencial – mas será a capacidade de empatia, liderança e visão sistêmica que definirá os novos protagonistas da área.

Dados do autor:

Fernando Akio Mariya – Médico especialista em Medicina do Trabalho, professor e diretor médico para a América Latina. trabsaudavel.protecao@gmail.com